Esta é a versão em html do arquivo http://www.revistas.usp.br/geousp/article/download/74252/77895.
G o o g l e cria automaticamente versões em texto de documentos à medida que vasculha a web.
TRÊS DÉCADAS DE EUCALIPTO NO EXTREMO SUL DA BAHIA Sebastião Pinheiro Gonçalves Cerqueira Neto* Resumo As grandes empresas qu
Page 1
GEOUSP - Espaço e Tempo, São Paulo, Nº31, pp. 55 - 68, 2012.
TRÊS DÉCADAS DE EUCALIPTO NO EXTREMO SUL DA BAHIA
Sebastião Pinheiro Gonçalves Cerqueira Neto*
Resumo
As grandes empresas que têm no eucalipto sua principal matéria-prima encontraram no Extremo Sul da
Bahia condições naturais favoráveis para o desenvolvimento de suas atividades. Contudo, as plantações
de eucalipto não modificaram apenas a paisagem rural, transformaram e influenciaram a dinâmica urbana.
Depois de mais de 30 anos na região o eucalipto ainda provoca muitas discussões sobre seus efeitos
que são sentidos desde o espaço natural, passando pela geração de trabalho e renda até a organização
do espaço. Este novo ciclo econômico que o eucalipto representa é o resultado das metamorfoses dos
espaços que estão abertos para o desenvolvimento. Desta forma, o eucalipto não deve ser tratado como
se fosse algo imposto somente pelas empresas, mas, também, como parte de um projeto apoiado pelo
governo brasileiro desde 1974. Compreender essa relação dialética será o objetivo principal desse artigo.
Palavras-chave: Extremo Sul da Bahia, eucalipto, espaço, desenvolvimento, governo.
THREE DECADES OF EUCALYPTUS IN THE EXTREME SOUTH OF BAHIA
Abstract
Large enterprises have in eucalyptus its main raw material found in the extreme south of Bahia natu-
ral conditions favorable to the development of its activities. However, eucalyptus plantations have not
changed just the rural landscape and influenced, transformed into urban dynamics. After more than 30
years in the eucalyptus still causes many discussions about their effects are felt from the countryside,
passing by the generation of employment and income to the Organization of space. This new economic
cycle that eucalyptus represents is the result of the metamorphoses of the spaces that are open for de-
velopment. This way, the eucalyptus trees should not be treated as if it were something imposed only by
enterprises, but also as part of a project supported by the Brazilian Government since 1974. Understand
this dialectical relationship is the main goal of this article.
Key-words: Extreme South of Bahia, eucalyptus, space, development, Government.
Introdução
Historicamente, atribui-se ao agrôno-
mo Edmundo Navarro de Andrade a responsabili-
dade de apresentar o eucalipto às terras brasileiras
no ano de 1904, com o objetivo de abastecer a
Companhia Paulista de Estradas de Ferro. No que
tange aos programas oficiais, os investimentos
no papel e celulose datam do II Plano Nacional de
Desenvolvimento que ocorreu entre 1975-1979;
portanto, este setor fazia parte da relação dos
“principais grupos de insumos básicos considera-
*Professor de Geografia do Instituto Federal da Bahia. E-mail: cerqueiraneto.mg@gmail.com

Page 2
56 - GEOUSP - Espaço e Tempo, São Paulo, Nº 31, 2012
NETO, S. P. G. C.
dos pelo II PNB visando garantia de suprimento,
numa auto-suficiência aberta ao fluxo de expor-
tação” (MONTEIRO, 1981, p.35). Assim, pode-se
perceber que o eucalipto não encontrou somente
condições edafoclimáticas favoráveis, mas, contou
com um plano de desenvolvimento de sua lavoura
amparado oficialmente. Por volta do início da dé-
cada de 80 o Extremo Sul da Bahia se torna uma
região altamente atraente para a proliferação das
grandes plantações de eucalipto que, inicialmente,
será destinado à produção de papel capitaneada
por duas empresas que são referências no mer-
cado mundial.
O Extremo Sul da Bahia é uma região
que está classificada pelo Estado da Bahia sob duas
vertentes: como um território de identidade, um
projeto que o Estado elaborou para mapear sua
diversidade cultural, e a outra classificação é dada
através daquilo que a região produz nos principais
setores da economia, sendo uma região econômica
entre as quinze delimitadas pelo Governo da Ba-
hia; segundo a classificação do IBGE para micror-
regiões, na Bahia, o município de Porto Seguro
representaria toda essa área que é o Extremo Sul,
existindo então a microrregião de Porto Seguro
que abrangeria todos os municípios localizados
no Extremo Sul do Estado. O Extremo Sul é com-
posto por vinte e um municípios e suas fronteiras
estão demarcadas da seguinte forma: ao Norte,
Sudoeste da Bahia e Litoral Sul da Bahia; ao Sul,
com o Estado do Espírito Santo; a Oeste, com Minas
Gerais; e, a Leste, com o Oceano Atlântico. A sua
posição geográfica no mapa do Brasil é privilegiada
(figura 01), haja vista a região participar de um
dos trechos mais importantes da BR 101 que faz
a transição entre o Sudeste e o Nordeste do país.
Figura 01. Localização da região pesquisada. Elaboração: PORTO, Ronaldo R., 2007.

Page 3
Três décadas de eucalipto no extremo sul da Bahia. pp. 55 - 68.
57
Este artigo é o resultado de um capí-
tulo da minha tese de doutorado intitulada Do
isolamento regional à globalização: contradições
sobre o desenvolvimento do Extremo Sul da Bahia
defendida em 2009 na Universidade Federal de
Sergipe. Em 2008 publiquei na Revista de Geo-
grafia Agrária Campo Território da Universidade
Federal de Uberlândia um artigo sobre o eucalipto
e seus efeitos no campo, desta forma, o artigo que
apresento aqui irá se dedicar à relação do eucalipto
com outros setores pesquisados após o término da
pesquisa. Nessa reflexão o leitor poderá entender
como se dá a relação entre as grandes empresas
do eucalipto com a região e rebatimento no urbano.
O eucalipto nas cidades
Apesar de se discutir amiúde os efeitos
do plantio de eucalipto no meio rural e ecológico,
estes efeitos também estão presentes no meio
urbano; muitos municípios tiveram a estrutura
urbana sensivelmente modificada. No município de
Mucuri, localizado na fronteira com os estados de
Minas Gerais e Espírito Santo, o eucalipto teve uma
grande influência no aumento da sua população,
que era de 4.810 habitantes em 1991 e em 2005,
teve um acréscimo de 22.305 moradores. Na
mesma proporção houve um aumento do número
de lojas de diversos segmentos, aparecimento de
fábrica de móveis, a construção e ou reformas de
hotéis e pousadas, a incrementação das clínicas e
hospitais, consultórios etc. Estima-se que houve
a geração de 13 mil empregos nos municípios
que estão no entorno do parque industrial. A
contrapartida desse crescimento é a inflação que
houve no mercado imobiliário destas cidades,
apesar da alegação de que se há inflação é porque
houve valorização do lugar.
Em Porto Seguro e Eunápolis também
houve modificações. O primeiro município, que
vivia somente em função do turismo e de alguns
produtos agrícolas passa também a produzir
eucalipto, aumentando sua fonte de receita e
amenizando os problemas de empregos que
dependem da sazonalidade. E o segundo, antes
considerado somente como uma passagem para
os turistas chegarem a Porto Seguro, depois da
implantação da fábrica conhece um crescimento
de proporções grandiosas. Estima-se que houve
em Eunápolis num período de cinco anos uma
valorização imobiliária de aproximadamente de
cem vezes. Esta variável é utilizada por alguns
pesquisadores para demonstrar que as indústrias
trouxeram mais problemas do que soluções, o que
não é compartilhado por aqueles que têm como
negócio a venda e o aluguel de imóveis, e também
analisado por alguns estudiosos da economia local
como valorização da cidade, afinal, os valores
dos imóveis dependem também do estágio de
desenvolvimento ou de exclusividade que o lugar
possui.
Entre os municípios da grande região
Nordeste brasileira, Santa Cruz Cabrália, Porto
Seguro, Eunápolis e Mucuri tiveram, no período
de 1991/2000, as maiores taxas de crescimento
populacional: entre 3.50 a 15.60. Por coincidência
1991 marca o início das atividades do eucalipto no
Extremo Sul da Bahia.
Dentro da nova dinâmica proporcionada
pelo eucalipto, destaca-se a criação de bairros,
haja vista eles serem a expressão máxima da
metamorfose dos lugares do Extremo Sul da Bahia.
Esses bairros, destinados aos funcionários, contam
com uma infraestrutura de urbanização melhor que
a cidade-sede onde o polo industrial está instalado.
Mas, estes bairros ou vilas que são projetados,
teoricamente, para haver uma convivência mais
próxima dos seus funcionários apresentaram
problemas sociais de diferenciação de classes
“principalmente entre os filhos de operários e os de
funcionários graduados, que apesar de conviverem
no mesmo espaço, não compartilhavam dos
mesmos locais de lazer” (PIQUET, 1998, p.86).
Alguns estudos de casos mostram que não houve
apenas problemas internos, eles ultrapassaram as
fronteiras dos condomínios provocando também
uma relação conflituosa com os moradores
das locais. Não há como desvincular a ebulição
sócioeconômica originada pela implantação dos
complexos do eucalipto da dinamização territorial
de cada lugar em que eles se estabeleceram. As
empresas passam a ditar o comportamento da
sociedade e (des) ordena o espaço.
Percebe-se que as cidades não se pre-
pararam para receber este novo ciclo econômico
que, se por um lado trouxe profissionais capacita-
dos de outros centros e tecnologia consolidando
parte do Extremo Sul da Bahia na economia mun-

Page 4
58 - GEOUSP - Espaço e Tempo, São Paulo, Nº 31, 2012
NETO, S. P. G. C.
dial, ele trouxe também pessoas com pouco ou
nenhum grau de estudo que incharam a periferia
das cidades ou promoveram o aparecimento de
novos bairros no modelo de invasão.
Há falhas tanto no que se refere ao
planejamento espacial negligenciado pelos políti-
cos, bem como na aproximação das indústrias
do eucalipto com as comunidades que estão no
seu entorno. Municípios e indústrias necessitam
melhorar o relacionamento produzindo, em con-
junto informações, com as criações de centros de
estudos, gerando conhecimentos para minimizar
os conflitos. Quando Lefebvre (1999, p.51) diz que
“atualmente o fenômeno urbano surpreende por
sua enormidade; sua complexidade ultrapassa os
meios do conhecimento e os instrumentos da ação
prática”, significa que se faz necessário penetrar
por vários caminhos deste processo para se obter
uma compreensão da sua dinâmica, ainda que a
transformação do meio aconteça cotidianamente
em diferentes partes do Planeta. Afinal, como
justifica Santos (1996, p.67),
em cada momento histórico os modos
de fazer são diferentes, o trabalho humano vai
tornando-se cada vez mais complexo exigindo
mudanças correspondentes às inovações.
Através das novas técnicas vemos a substitu-
ição de uma forma de trabalho por outra, de
uma configuração territorial por outra.
O que acontece com o urbano no
Extremo Sul da Bahia está se dando dentro de
outras regiões, onde a chegada de grandes pro-
jetos de desenvolvimento, não importando o seu
segmento, provoca sensíveis modificações no
meio. A urbanização do Extremo Sul da Bahia se
desenvolveu sem planejamentos, e ainda tem
outra variável que foi a histórica concentração de
investimentos em Salvador e adjacências, como
analisam Silva; Silva (2003, p.104): “a questão
urbana na Bahia não se resume mais a Salvador e
algumas poucas cidades, como nos anos 60; hoje
ela praticamente se manifesta em todo o território
estadual (...) inclusive nas extremidades do ter-
ritório“. Este modelo centralizador na forma de
administrar, num estado de dimensão territorial
maior que alguns países, como no caso da Bahia,
teve severas consequências para o atraso de alguns
municípios da região.
Emprego e desenvolvimento: para-
doxos do eucalipto
O eucalipto influencia em diversos
setores da vida de uma sociedade, mas, depois das
questões ambientais, o que mais chama a atenção
na presença dessas multinacionais dentro de um
território é a mensuração da sua capacidade de
geração de empregos. Geralmente, espera-se uma
grande oferta de trabalhos com a chegada de uma
grande empresa. Esta expectativa é evidenciada
num estudo realizado por Dias. (2001, p.324) no
qual o autor faz o seguinte relato: “na avaliação
da população, existe uma expectativa favorável
quanto à implantação desses empreendimentos,
uma vez que, segundo a população consultada:
vão gerar empregos, melhorar a infraestrutura,
incentivar as atividades ligadas ao comércio
e serviços etc.” Este panorama criado pela
população vai proporcionar o estabelecimento
de mais uma situação dialética: uma corrente
contrária à instalação de seus pólos de produção
na região irá argumentar que são inexpressivos os
números de empregos gerados e, uma outra parte
contra-argumenta dizendo que se deve pensar na
amplitude do alcance que a instalação da empresa
pode produzir dentro da região e não somente nos
empregos gerados diretamente por ela.
Tomando como parâmetro a relação
da fábrica da Aracruz Celulose S/A, no município
homônimo, Piquet (1998, p. 121-122) mostra
alguns dados da correlação investimento e geração
de emprego e sua variação em determinados
períodos:
entre 1988 e 1991, as obras de expansão da
fábrica, no valor de 1,3 bilhão de dólares,
exigem a contratação de construtoras, que
carreia para o local um contingente de
10.000 operários [...]. Em 1992, emprega
7.000 funcionários, dos quais 66% (4.588)
localizados no município, que somados aos
seus familiares perfazem cerca de 20.000
pessoas dependentes do empreendimento
em Aracruz.
Os números apresentados acima
mostram que há um acréscimo na oferta de emprego
e geração de renda nos lugares que receberam as
fábricas da celulose. Além de gerar trabalho para

Page 5
Três décadas de eucalipto no extremo sul da Bahia. pp. 55 - 68.
59
os moradores do município, gera também para
pessoas originadas de outras regiões do Brasil,
contribuindo para a desconcentração de algumas
áreas saturadas demográfica e industrialmente do
país. A participação da Região Nordeste, onde está
inserido o Extremo Sul da Bahia, começa a partir
da industrialização nacional, efetivamente, no
começo da década de 1970. Segundo Diniz (1993,
p.51) “Embora o Estado de Pernambuco tenha
perdido participação, praticamente todos os demais
estados ganharam. No entanto, [foi o Estado da
Bahia] que aumentou sua participação de 1,5 para
4% da produção industrial do Brasil”. Mesmo com
todos os atrasos de investimentos, o Nordeste
é a segunda região a aumentar sua atividade
industrial quando da política de descentralização
de indústrias. E, estas fábricas de transformação
da celulose e papel são, no Extremo Sul Baiano, a
continuidade deste processo.
De acordo com um estudo feito pela
Fundação Getúlio Vargas (FGV) publicado em
2007, a Veracel Celulose S/A, uma das maiores
produtoras de eucalipto no Extremo Sul da Bahia,
teve uma grande participação na geração de
emprego e renda do país. Para fazer esta afirmação
a FGV apresentou os seguintes números: “dos
741 empregos diretos da Veracel, suas atividades
sustentaram mais 29,6 mil postos de trabalho nos
demais setores de atividade da economia brasileira,
totalizando 30,4 mil empregos no ano de 2006”
(FGV, 2007, p. 22).
Para se fazer uma análise sobre a
geração de empregos proporcionados diretamente
pelas empresas produtoras e transformadoras
do eucalipto será preciso dividir sua ação em
duas fases: A primeira, quando da construção
da parte física e infraestrutura da empresa, se
tem a formação de um grande canteiro de obras
com a maioria dos empregos direcionados para
construção civil. Na segunda fase, em que o
parque industrial está construído, há uma retração
no número de empregos, e a fábrica passa a
absorver trabalhadores nas atividades que exigem
um maior nível de escolaridade e conhecimento
técnico, tendo em vista que “a industrialização
moderna necessita de um capital humano que
possua ao menos habilidades comunicativas para
efetuar a concepção, organização, coordenação e
execução de tarefas” (HANSEN, 2003, p. 98). É
um processo que os demógrafos entendem como
desindustrializar um lugar, isto é, continua se
produzindo, no entanto, com menos pessoas, mas,
em contrapartida, com maior grau de qualificação.
A exigência de pessoal mais qualificado
para dar continuidade ao funcionamento dos
diversos setores da produção faz com que haja
a dispensa, senão total, mas de grande parte,
daqueles trabalhadores que estavam na primeira
fase da implantação dessas empresas. Para ocupar
os postos de trabalho que necessitam de pessoas
com formação técnica e superior, geralmente, as
empresas importam pessoas de outras regiões,
pois, nos lugares que recebem este tipo de
empreendimento não há trabalhadores capacitados
que possam desempenhar as atividades que
dependam de um nível de estudo mais elevado. De
acordo com Singer, H. (1979, p.210), o modelo de
atuação das multinacionais “tende a empregar uma
tecnologia de capital intensivo sendo, portanto,
improvável que contribua para a redução do
desemprego”, podendo criar uma insatisfação nas
sociedades locais.
O resultado desta dilatação e
contração na oferta de empregos temporários em
grandes projetos, onde o Brasil tem uma larga
experiência através da construção de grandes
usinas hidrelétricas, garimpos, e construções de
capitais como Brasília e Palmas (TO), geralmente,
é o aparecimento de grandes bolsões de misérias.
Em grande medida isso se deve aos discursos
dos políticos e dos empresários que vendem
uma ideia de que estes grandes projetos trarão
o desenvolvimento para a região. Entretanto, é
importante se ter a clareza de que as empresas não
podem e não devem ser os únicos caminhos que
levem a sustentabilidade ou salvação econômica
de um lugar ou de uma região. Apesar de alguns
setores da política, da economia e da administração
acreditarem que isso seja possível, e por isso,
vendem esta retórica como uma estratégia eficaz
para conseguirem sensibilizar a sociedade local e
regional. Santos (2000, p. 67) analisa esta situação
da seguinte forma:
as empresas privadas assumiram um trabalho
de assistência social antes deferido ao poder
público. Caber-lhe-ia, desse modo escolher

Page 6
60 - GEOUSP - Espaço e Tempo, São Paulo, Nº 31, 2012
NETO, S. P. G. C.
quais os beneficiários, privilegiando uma
parcela da sociedade e deixando a maior
parte de fora. [...] Essa ‘política’ das empresas
equivale à decretação de morte da Política.
Mas, então como estabelecer
um diálogo com essas empresas buscando a
minimização dos seus impactos deletérios nos
meios ecológico e social? É sabido que o objetivo de
qualquer grupo empresarial é a lucratividade de sua
produção, no caso das multinacionais do eucalipto,
a sua produtividade tem relação direta com as
condições edafoclimáticas encontradas no Extremo
Sul da Bahia, bem como, a sua posição geográfica
estratégica. Portanto, essas empresas não têm uma
vida própria, elas dependem de vários fatores que
fogem ao seu poder de controle. Para obter sucesso
em sua produtividade essas empresas precisam
muito mais do que a construção de um prédio ou
de um corpo de trabalhadores, elas dependem em
muito da natureza. Por isso, a importância de haver
um corpo técnico (das prefeituras ou do Estado)
preparado para negociar as condições para sua
instalação no município ou até mesmo pensar num
planejamento para toda a região. Todavia, o que
houve foi uma espécie de abertura do território
em prol desta atividade sem que se pensasse nas
repercussões sócio-ambientais. Uma abertura que
foi, de certa forma, articulada, isto é, não se deu
por acaso; como se a região fosse preparada para o
eucalipto. De acordo com Pedreira (2004, p.1010),
a conjunção de fatores, como a existência de
áreas aptas ao reflorestamento, excelentes
condições edafoclimáticas, os incentivos
fiscais, além do padrão concorrencial do
segmento de papel e celulose, condicionaram-
se mutuamente para que o Extremo Sul da
Bahia se tornasse uma área privilegiada para
a expansão e o desenvolvimento de atividade
florestal e da agroindústria de celulose.
Observa-se que estas empresas não
se instalariam somente por conta de incentivos
fiscais, mas dependem, sobretudo, de condições
naturais. Além disso, a geografia da região favorece
o seu circuito de produção e o escoamento de
seus produtos, por isso, elas “na busca da mais-
valia desejada, valorizam diferentemente as
localizações. Não é qualquer lugar que interessa
a tal ou qual firma” (SANTOS, 2000, p.33). Neste
caso, por exemplo, a isenção de impostos por
longos períodos de atividade da empresa não se
justifica somente através dos dividendos que ela
poderá gerar para poucos municípios do Extremo
Sul Baiano. Em 2001, “exportação de celulose
pela Bahia ocupava o terceiro lugar na pauta de
exportações do Estado” (SILVA, 2001, p. 70),
sendo assim, pode se questionar o porquê da não
redução da pobreza regional, e até mesmo local,
através desta atividade econômica. Isso comprova
que nenhuma empresa ou atividade econômica é
capaz, de maneira isolada, acabar com a pobreza
de uma região inteira ou de um lugar. De acordo
com Cerqueira Neto (2008, p. 106),
a incapacidade de buscar alternativas que
coloquem a sua população desempregada
dentro da economia faz com que os dirigentes
políticos se acomodem em apenas discursar
sobre o feito de terem atraído uma grande
empresa para o seu município, sem pensar
nas consequências negativas de âmbitos so-
ciais, ambientais, culturais e econômicas que
isso pode gerar. Então, sabedoras das debi-
lidades dos nossos administradores públicos,
as empresas passam a ditar as regras em
territórios totalmente abertos e fragilizados
politicamente.
Assim, as grandes empresas criam
ou recriam novas regiões, e talvez por isso sejam
tão responsabilizadas pelo desenvolvimento ou
crescimento dos lugares. A chegada das grandes
empresas do eucalipto no Extremo Sul baiano não
provocou o aparecimento de nenhum município, no
entanto, houve mudança na dinâmica de alguns
distritos que adquiriram uma rotina de pequenas
cidades, como Posto da Mata (distrito de Nova
Viçosa) e de Barrolândia (distrito de Belmonte),
só para citar dois exemplos. Estes distritos, até
então com uma vida pacata, são violentados para
atender as necessidades de corporações maiores
que eles. Simplesmente, se torna um cataclismo.
Para Dias, N. (2001, p. 322)
o avanço das atividades ligadas ao
plantio de eucalipto [...] interfere de forma
significativa na vida socioeconômica da região,
provocando profundas modificações em sua
organização sociocultural, vez que esses pro-

Page 7
Três décadas de eucalipto no extremo sul da Bahia. pp. 55 - 68.
61
jetos agem como atrativos de população e,
conseqüentemente, de modos de vida difer-
entes daqueles vigentes na área.
Assim, fica evidente que o governo, em
todas suas escalas, se omitiu de todo esse processo
de eucaliptização da região, e, isto deve ser ques-
tionado, pois a expansão do eucalipto no Extremo
Sul da Bahia está ligada diretamente à raquitização
político-econômica, principalmente dos municípios.
De acordo com Dias, N. (2001, p. 322),
o impacto desses projetos sobre a
precária infra-estrutura existente, levando
a uma significativa degradação dos serviços
oferecidos à população, especialmente àque-
les que não conseguiram inserção nas novas
atividades relacionadas ao plantio e beneficia-
mento de eucalipto.
Esta interferência, descrita pelo autor
citado acima, não acontece somente com os em-
preendimentos ligados ao eucalipto, mas é próprio
da falta de organização dos territórios, que vai
desde a escala local até a global. Não houve no
Extremo Sul Baiano projetos de construção das
cidades. Os lugares sofrem impactos desde as
primeiras atividades econômicas.
Dentro do período histórico (2006-2009)
no qual a tese foi realizada, é possível vislumbrar
que as florestas de eucalipto permanecerão por
muitos anos na região. É um novo ciclo econômico,
que produz um artigo de necessidade a humani-
dade, desde um simples bilhete até a impressão
de livro, e o uso do computador exigiu mais uti-
lização do papel, o que muitos pensavam ser um
paradoxo. Um ciclo que com todas as críticas,
a maior parte considerável, não tem nenhuma
relação com a extinção da fauna e da flora na
região. A despeito de sua infraestrutura, as plan-
tações e as unidades fabris, é outra razão para
se projetar a sua longevidade, tendo em vista
que seria impossível pensar que ela poderia ser
desfeita uma hora para outra, e sua produção se
comporta de maneira satisfatória ante às crises
econômicas, pois, ainda que haja fusões ou com-
pra de uma companhia por outra, a sua produção
continuará para atender aos mercados internos e
externos. Nos quadros 01, 02 e 03, com base em
informações divulgadas em diferentes meios pelas
empresas, estão compilados dados sobre a tra-
jetória, áreas de atuação e os perfis das principais
produtoras de eucalipto no Extremo Sul da Bahia.
ANO
ACONTECIMENTOS
1991
- Início de atividades da Veracruz Florestal Ltda. Como subsidiária da Odebrecht.
- A empresa realiza suas primeiras aquisições de terras no Sul da Bahia, entre
elas a Estação Veracruz, atual Estação Veracel.
1992
- Início do plantio de eucaliptos.
1997
- Associação entre a Odebrecht e Stora (Suécia).
1998
- Mudança da razão social para Veracel Celulose S.A.
1999
- Fusão entre Stora (Suécia) e Enso (Finlândia) formando a Stora Enso.
2000
- Novo acordo de acionistas marca ingresso da Aracruz no empreendimento.
2001
- Início da construção do Terminal Marítimo de Belmonte
2002
- Terminal Marítimo de Belmonte entra em operação.
- Início das operações de transporte e comercialização da madeira.
2003
- Início das obras da fábrica.
2004
- Aprovação do financiamento do projeto por agências multilaterais e BNDES.
- Criação e aprovação da Agenda de Sustentabilidade.
- Adesão ao Pacto Global (Global Compact).
2005
- Iniciado o processo de certificação dos plantios pelo Cerflor (Programa Bra-
sileiro de Certificação Florestal - Inmetro).
- Inauguração da fábrica e início das operações industriais.
Quadro 01. Trajetória da Veracel Celulose S.A. no Extremo Sul da Bahia. Elaboração: CERQUEIRA NETO, S.P.G,
2007.

Page 8
62 - GEOUSP - Espaço e Tempo, São Paulo, Nº 31, 2012
NETO, S. P. G. C.
Área total
168. 794 hectares.
Localização da fábrica
e dos plantios
Extremo Sul da Bahia e Norte do Espírito Santo.
Fundação
Em 1987 é criada a Bahia Sul Celulose S.A. Tinha como sócias a Cia.
Suzano de Papel e Celulose e a Cia. Vale do Rio Doce.
Início da Unidade Fa-
bril em Mucuri
Março de 1992 começa a produção de celulose e em Fevereiro de
1993 tem início a fabricação de papel.
A unificação da em-
presa
Em junho de 2001 a Cia. Suzano de Papel e Celulose compra todas
as ações pertencentes a Cia. Vale do Rio Doce. Em junho de 2004
passa a se chamar Suzano Bahia Sul Papel e Celulose S.A.
Municípios do Ex-
tremo Sul da Bahia
que fazem parte do
seu Complexo
Alcobaça, Caravelas, Ibirapuã, Lajedão, Mucuri, Nova Viçosa e Teix-
eira de Freitas.
Quadro 02. Trajetória da Suzano Bahia Sul Papel e Celulose S.A. na região. Elaboração: CERQUEIRA NETO, S.P.G,
2007.
Área total
18.554 hectares.
Objetivo do seu plan-
tio
Produzir eucalipto para transformá-lo em carvão que abastece os
fornos da Belgo em Juiz de Fora (MG).
Área destinada a
produção
8.843 hectares.
Empresa controladora
Grupo Arcelor Mittal, considerado como o maior grupo siderúrgico
do mundo. É o acionista controlador da Acesita (Vale do Aço, MG).
Municípios do Ex-
tremo Sul da Bahia
onde localizam as
plantações da em-
presa
Teixeira de Freitas, Caravelas, Prado e Alcobaça.
Quadro 03. Atuação CAF Santa Bárbara Ltda. na região. Elaboração: CERQUEIRA NETO, S.P.G, 2007.
A atuação dessas empresas tem in-
fluência direta nas novas configurações territoriais,
tendo em vista que, elas promovem, através do
comércio com outros países, a inserção da região
no mercado mundial, têm peso relevante na
política das localidades onde estão inseridas, geram
empregos, criam bairros, provocam discussões
acaloradas sobre as suas atuações na sociedade e
no meio ecológico.
Rede: a integração que o governo não fez
Quando se pensa num projeto de
integração espacial é impossível não colocar
em destaque a construção de uma rede que
permita a inserção interna e externa dos lugares,
das regiões ou dos países no contexto social,
econômico, ambiental e cultural. De acordo com
Dias (1995, p. 149) os estudos sobre redes, na
atualidade, permite verificar as “suas relações com
a urbanização, com a divisão territorial do trabalho
e com a diferenciação crescente que esta introduziu
entre as cidades. Trata-se, assim, de instrumento
valioso para a compreensão da dinâmica territorial
brasileira”. Geralmente, no Brasil, quando
um lugar é bem servido por uma rede mais
completa significa que este lugar é um ponto de
referência, mormente, econômico. Na definição
de Toledo Junior (2003, p.93): “as redes podem
ser entendidas tanto como a presença de uma
infraestrutura no território quanto pelos serviços
que esta permite que se realizem”. O entendimento
desta complexidade vai desde relacionar quantos
quilômetros de cabo de fibra óptica existem num
território até o grau de influência que um lugar
exerce sobre os outros a partir da grandiosidade
de sua rede.
No que tange a implantação de redes,
a Bahia seguiu o mesmo modelo adotado pelos
diferentes presidentes da República, onde se
privilegiava alguns lugares e deixava a maioria

Page 9
Três décadas de eucalipto no extremo sul da Bahia. pp. 55 - 68.
63
do território nacional à mercê de uma evolução
aleatória ou natural, isto significa dizer que não
houve um planejamento que tivesse a unidade do
estado como objetivo principal, mas a diferenciação
dos lugares de acordo com a sua importância
política e econômica. O favorecimento de algumas
regiões em detrimento de outras é parte da história
da política econômica do país, e isto foi seguido
pelos governos estaduais. No que concerne a
escolha dos lugares que serão aparelhados por uma
rede, Toledo Junior (2003, p. 95) diz que
a concentração das redes em determinados
pontos do território normalmente irá indicar
lugares que são bem servidos por diversos
tipos de infra-estruturas, que se dão através
de investimentos públicos e privados, mas
que servirão preferencialmente a determinada
parcela do território e da sociedade.
Dentro desse hiato deixado pelos
governos baianos, as empresas com grande poder
de transformação espacial passaram a suprir
esta deficiência do Estado, ainda que o objetivo
primeiro seja o de atender as suas necessidades
logísticas, porém de uma forma ou de outra os
lugares vão aproveitando de uma nova rede que
as grandes empresas constroem. A cada novo
traçado que vai sendo tecido por essas empresas
há, paralelamente, um aumento da urbanização
que pode levar à formação da rede urbana que de
acordo com Corrêa (2005, p.93) é constituída por
um “conjunto de centros urbanos funcionalmente
articulados entre si. É, portanto, um tipo particular
de rede na qual os vértices ou nós são os
diferentes núcleos de povoamento dotados de
funções urbanas”. No Extremo Sul da Bahia houve
modificações substanciais no território a partir da
chegada das grandes empresas do eucalipto,de
acordo com as quais os lugares começaram a ter
suas funções mais definidas.
Enquanto Itabuna-Ilhéus, pólo
concentrador do comércio de cacau, e os demais
municípios que gravitavam no seu entorno
recebiam investimentos para consolidar uma rede,
composta por rodovias e portos, que visava dar
maior mobilidade interna e externa ao cacau, o
Extremo Sul da Bahia, ainda que, fazendo parte da
área produtora de cacau nos tempos áureos, ficou
à margem desses benefícios. O que se vê com este
retardo na construção de uma rede para o Extremo
Sul Baiano é que outros municípios interioranos
“começam a adquirir certa importância como, por
exemplo, Ipiaú e Ubaitaba, expressando também
a melhoria na interdependência do sistema de
transporte rodoviário fortemente apoiado pelo
Instituto do Cacau da Bahia” (SILVA, S. 2001, p.
63). A situação de precariedade de comunicação
terrestre só começa a ser amenizada com o
asfaltamento da BR-101, via responsável por
estreitar cada vez mais a relação desta parte da
Bahia com o Sudeste do país. A BR 101 no trecho
que passa pelo Extremo Sul funciona com uma
espinha dorsal de onde partem ou se encontram
os ramais que ligam todos os municípios da região.
A implantação dos complexos
industriais de celulose e papel “obrigou” a região
a se adequar a um novo cenário no qual se tornaria
um dos maiores centros produtores de eucalipto
do país, o que implicava melhoria, expansão
e introdução de novas redes que permitissem
uma maior agilidade e instantaneidade em seus
sistemas de comunicação e maior eficiência em
sua logística. Esta exigência técnica resultou na
revitalização, abertura e asfaltamento das estradas
que dão acesso às cidades e aos distritos que
estão no entorno dos parques industriais e ou
áreas de plantio. Estima-se que somente a Veracel
Celulose S/A tenha construído mais de 110 km
de estradas asfaltadas e mais de 1.500 km de
estradas cascalhadas na região de Eunápolis.
As repercussões desta atividade econômica no
território e na sociedade, no que concerne a
melhoria ou o aumento da rede de transporte e de
comunicação podem ser observadas através dos
pontos destacados abaixo.
a) Recuperação do trecho da BR-
101 (principal via de escoamento terrestre) que
passa pela região. Sendo a via principal, ela
é de fundamental importância interna para o
desenvolvimento da região. Nela estão localizadas
as duas cidades regionais, Eunápolis e Teixeira
de Freitas, que são dotadas de órgãos oficiais
estaduais e federais, são centros de compras,
possuem os hospitais mais equipados, faculdades
e universidades. Sendo assim, a boa manutenção
desta rodovia representa melhor mobilidade para
a sociedade da região como também para os que

Page 10
64 - GEOUSP - Espaço e Tempo, São Paulo, Nº 31, 2012
NETO, S. P. G. C.
estão de passagem ou a passeio pelos lugares
turísticos. No entanto, a preocupação com a
melhor condição de tráfego pela BR 101 atende
principalmente às empresas transformadoras de
eucalipto.
b) A construção de um terminal
marítimo no município de Belmonte para escoamento
das toras de eucalipto é outra obra de grande
relevância na região (figura 06). Diferentemente
da BR 101, a navegação marítima partindo deste
porto é exclusivamente para favorecer a mobilidade
da Veracel. Desta forma, não há nenhum benefício
para os cidadãos que moram no Extremo Sul da
Bahia. Talvez, no futuro possa se encontrar uma
forma de integrar o terminal marítimo de Belmonte
com a região, como por exemplo, na exportação e
importação de mercadorias ou até mesmo para o
desembarque de turistas.
c) A ampliação de opções pelo
transporte aéreo que se mostra presente na
ampliação ou construção de um novo aeroporto
para Porto Seguro. Neste caso, o turismo tem um
grande apelo, contudo, por estas empresas serem
formadas por sócios estrangeiros ou que vivem em
outros estados do Brasil e a troca de conhecimento
entre seus técnicos que necessitam se locomover
entre grandes distâncias, as companhias aéreas
não ignoram este filão do mercado. Em Teixeira de
Freitas há um aeroporto que precisa ser ampliado
para receber grandes aeronaves.
d) Outra influência das multinacionais
do eucalipto está na melhoria da rede de
comunicação como na chegada das operadoras
de telefonia móvel que disputam os municípios da
região e na implantação de servidores de internet.
No Extremo Sul da Bahia as principais operadoras
(TIM, CLARO, OI e VIVO) já demarcaram seus
lugares. Municípios até então servidos apenas
por telefone fixo passaram a ter torres que
distribuem o sinal para os telefones móveis. A
estratégia das operadoras é a seguinte: sabendo
que os funcionários destas empresas precisam
de uma comunicação que vai além do telefone
fixo e da internet eles se tornam a porta de
entrada para a expansão dos serviços de telefonia
móvel. Este panorama reforça a análise de que
no Brasil “os investimentos maciços no setor de
telecomunicações vieram satisfazer, antes de tudo,
às exigências das mais poderosas organizações
nacionais e internacionais” (DIAS, 1995, p. 153).
Os próprios pacotes das operadoras favorecem
com tarifas mais atraentes às empresas, enquanto
que para o consumidor simples os serviços são
mais caros.
e) Por fim, percebe-se houve uma
maior fluidez dos ônibus que fazem as rotas dentro
da própria região bem como para outras regiões
baianas e outros estados. Os deslocamentos
dos trabalhadores para as cidades onde estão
instalados os parques industriais da celulose
provocaram um aumento na disponibilidade de
horários das empresas de ônibus. Por exemplo: se
antes uma empresa de ônibus disponibilizava para
um determinado lugar, geralmente aqueles com
menor numero de habitantes, somente um horário
durante o dia, depois da chegada do eucalipto
passou fornecer mais um. Dessa forma, ainda
que esta mudança seja forçada em função das
empresas do eucalipto, a população local também
desfruta desta possibilidade de maior mobilidade
pelo território.
É importante lembrar que quando se
refere ao atendimento às indústrias do eucalipto,
está implicitamente, também, relacionando a gama
de empresas terceirizadas que prestam serviços a
elas, que, por sua vez, também precisam de uma
rede para o desenvolvimento de suas atividades e
para o trânsito de seus funcionários.
Essas melhorias da infraestrutura
das redes no Extremo Sul baiano, ora realizadas,
tendenciosamente, pelo Estado, ora, pela iniciativa
privada ou ainda em conjunto, são frutos de
uma política de incentivo para a implantação e
aumento de atividades industriais. Elas seguem
uma política oficializada no país, segundo a
qual “o desenvolvimento industrial se torna
prioritário da economia nacional, representando
um modelo através do qual o Estado devia realizar
a integração do mercado nacional” (DIAS, 2004,
p.162). Então, pode-se concluir que no Brasil se
não há possibilidades da chegada de um grande
empreendimento num dado lugar, a sociedade que
nele habita estará fadada ao isolamento.
Dessa forma, uma grande área
do Extremo Sul foi “capturada” por uma rede
tecida pelas multinacionais do eucalipto com

Page 11
Três décadas de eucalipto no extremo sul da Bahia. pp. 55 - 68.
65
o consentimento do Estado, que não percebeu
o perigo de perder uma das suas funções
vitais, que é a de organizar e gerenciar o seu
espaço territorial em benefício da sociedade.
Hoje, o eucalipto é responsável por uma nova
caracterização geoeconômica do Extremo Sul da
Bahia provocando, inclusive, o desaparecimento
das fronteiras geográficas nos pontos de divisa com
os estados de Minas Gerais e do Espírito Santo,
formando assim uma região, quase, autônoma.
Ignoradas essas fronteiras vizinhas, o eucalipto vai
inserir o Extremo Sul no contexto mundial através
da exportação de seus produtos e pela própria
composição dos acionistas de algumas empresas,
que têm suas origens em outros países.
O preterimento do Extremo Sul da
Bahia em relação a outras regiões do estado, no
que tange a implantação de uma rede eficaz que
propiciasse a sua integração, desde o apogeu
do cacau, com isolamento parcial por falta de
estradas, fez com que a região buscasse o seu
caminho para uma sobrevivência econômica. Dessa
forma ela ficava suscetível de ser vista apenas
como um imenso hiato desvalorizado entre o
Sudeste e o Nordeste, ou, ao contrário, um grande
eldorado para as grandes organizações que passam
a ser a única esperança de entrada da região
no cenário econômico nacional e internacional
através da construção de suas redes. Neste
sentido, as multinacionais do eucalipto tiveram
um papel decisivo na melhoria da infraestrutura
de comunicação interna e externa do Extremo Sul,
bem como viabilizando uma maior mobilidade.
Contudo, não se pode perder de vista que
a ótica das redes manifesta a espacialidade
das grandes corporações e instituições
internacionais (que em geral possuem sedes
centrais nos países do chamado Primeiro
Mundo), as quais operam numa lógica escalar
que só concebe a existência do local e do
global, posto atuarem por meio de fluxos e
pontos (MORAES, 2002, p. 193).
Essa dinâmica parece ser uma troca
natural que ocorre entre territórios desamparados
e enfraquecidos politicamente, mas que ao mesmo
tempo são ricos em recursos naturais, e as grandes
empresas que têm capacidade de transformar os
recursos em riquezas. Sobre esta relação entre
governo brasileiro e as empresas de eucalipto,
Monteiro (1981, p. 40) nos mostra que ela não é
recente na história do país, tendo em vista que,
o programa de reflorestamento (ou
melhor dizendo, de silvicultura com espécies
alienígenas) desencadeado especialmente
a partir de 1966 (Lei dos incentivos fiscais
n.5.106) gerou condições de garantia de
matéria-prima para a indústria de polpa,
papel e celulose que, em vista do esforço de
exportação, chegou a medidas estimuladoras,
que cumularam com a admissão do próprio
transplante de fábricas.
No Extremo Sul da Bahia o
comportamento do eucalipto diferencia dois
exemplos da literatura: o caso de Aracruz (ES)
estudado por Rosélia Piquet (1998) e o caso
de Telêmaco Borba (PR) pesquisado por Bacha
(1988) envolvendo a Klabin; pois, nessa região,
ele encontrou cidades prontas, com alguma
infraestrutura, isto que dizer que não precisou
construir bairros ou cidades, apenas aprimorou
o que havia e acrescentou outros elementos que
beneficiaram as suas atividades.
Conclusão
Sem dúvida que a atividade que mais
desperta interesse, ou chama a atenção no ter-
ritório do Extremo Sul da Bahia, dentre outras de
grandes dimensões, é a que tem na transformação
da celulose seu principal objetivo de comércio. O
eucalipto transformou o campo e o urbano nas lo-
calidades que estão no entorno de suas plantações
ou fábricas. Despertou alegrias e contestações nos
diferentes meios da sociedade e a sua produção
significa um novo ciclo econômico no Extremo Sul
da Bahia, e apresenta suas contradições como
qualquer outro ciclo que se instala numa região.
A eucaliptização do Extremo Sul é decorrente de
vários processos históricos de ocupação do ter-
ritório.
Entre os problemas mais evidenciados
pela chegada do eucalipto na região, recebem
uma atenção especial o aumento da prostituição,
crescimento da criminalidade, desterritorialização
de parte da sociedade rural, aumento dos imóveis
e perturbação no meio ecológico. A maior parte

Page 12
66 - GEOUSP - Espaço e Tempo, São Paulo, Nº 31, 2012
NETO, S. P. G. C.
dessas consequências pode ser constatada nos
trabalhos de campo e por pesquisas e artigos es-
critos sobre o extremo sul da Bahia. Entretanto, é
importante fazer algumas considerações sobre esta
atividade econômica não no sentido de elaborar
alguma defesa sobre seus malefícios nesta parte do
Brasil. Interessante lembrar que o eucalipto chega
numa região desprezada e debilitada politicamente
e desgastada ambientalmente pela exploração da
Mata Atlântica. Logo, no extremo sul da Bahia
o eucalipto encontra uma terra fértil para sua
expansão. Uma expansão que foi proporcionada
por vários fatores, tais como, o financiamento da
atividade pelo Governo Federal através de liberação
de verbas do BNDES; as dificuldades de obtenção
de crédito por parte do pequeno agricultor, e sem
condições de melhorar sua produção a tendência
é se desfazer da terra, se tornar empregado, in-
clusive das empresas do eucalipto, inchaço das
cidades, diminuição da produção rural.
Não se pode pensar que o eucalipto
chega ao Extremo Sul logo após as primeiras
derrubadas de matas efetuadas no começo do
século XVI. Até a chegada desta atividade houve
outras atividades econômicas tão danosas ao meio
ambiente quanto ao ser humano que exploraram
esta região, no entanto, também responsáveis
pela urbanização regional. Não se sabe ao certo o
quanto irá durar o ciclo do eucalipto no Extremo Sul
da Bahia, porém, é preciso haver a construção de
novas posturas que visem a uma maior integração
entre as empresas e os municípios. Contudo, em
entrevista com lideranças políticas de várias locali-
dades, percebeu-se que é muito mais fácil o acesso
ao presidente de uma grande empresa por parte
dos políticos locais do que marcar uma audiência
com o governador do Estado. Com isso, conseguem
a reforma de uma escola, a construção de uma
creche, a aquisição de ambulâncias, por exemplo.
Isso tende a distanciar, cada vez, mais a região
do poder central baiano e pode criar uma relação,
entre empresa e municípios, onde o bem-estar da
sociedade não seja o objetivo final.
Bibliografia
CERQUEIRA NETO, Sebastião P. G. Eucaliptização:
um processo de especialização do Extremo Sul
da Bahia? CAMPO-TERRITÓRIO: revista de geo-
grafia agrária, v.3, n. 6, p. 85-108, ago. 2008.
CORRÊA, Roberto Lobato. Trajetórias geográficas.
3ª. ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2005.
DIAS, Leila Christina. A importância das redes para
uma nova regionalização brasileira. In: LIMONAD,
E. et al (orgs.). Brasil século XXI: por uma nova
regionalização? São Paulo: Max Limonad, 2004.
DIAS, Leila Christina. Redes: emergência e organi-
zação. In: CASTRO, Iná et al (orgs.). Geografia: con-
Geografia: con-
ceitos e temas. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1995.
DIAS, Noilton Jorge. Os impactos da moderna
indústria no Extremo Sul da Bahia: expectativas
e frustrações. Revista Análise & Dados. Salval-
dor, SEI, v.10, n°4, p.320-325. março, 2001.
DINIZ, Célio Campolina. Desenvolvimento po-
ligonal no Brasil: nem desconcentração, nem
contínua polarização. Revista Nova Economia.
Belo Horizonte: FACE/UFMG, set. 1993. p.35-61.
FUNDAÇÃO GETÚLIO VARGAS (FGV). De por-
tas abertas para o desenvolvimento susten-
tável: Veracel Celulose. São Paulo, 2007.
HANSEN, Dean L. Educação e desenvolvi-
mento local. In: FALCÓN, Maria LúciaO.; HANS-
EN, Dean L. e BARRETO JÚNIOR, Edison R.
(orgs.) Cenários de desenvolvimento local:
estudos exploratórios. Aracajú: Secretaria
Municipal de Planejamento, 2003. p.97-123.
LEFEBVRE, Henri. A revolução urbana. Tradução:

Page 13
Três décadas de eucalipto no extremo sul da Bahia. pp. 55 - 68.
67
Sérgio Martins. Belo Horizonte: UFMG, 1999.
MONTEIRO, Carlos A. F. A questão ambiental no
Brasil (1960-1980). São Paulo: IGEOU-USP, 1981.
MORAES, Antônio C. Robert. Território e
história no Brasil. São Paulo: Hucitec, 2002.
PEDREIRA, Márcia S. Complexo florestal, de-
senvolvimento e reconfiguração do espaço
rural: o caso da Região do Extremo Sul ba-
iano. Revista Bahia Análise & Dados. Salva-
dor, v.13, n°4, p. 1005-1018, março de 2004.
PIQUET, Rosélia. Cidade-empre-
sa: presença na paisagem urbana brasilei-
ra. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1988.
SANTOS, Milton. Por uma outra globali-
zação: do pensamento único à consciên-
cia universal. Rio de janeiro: Record, 2000.
SANTOS, Milton. Metamorfoses do es-
paço habitado. São Paulo: Hucitec, 1996.
SILVA, Sylvio B. M. Formação de uma região
dinâmica: o exemplo do Extremo Sul da Ba-
hia. in: BENEDICTO, J.L.L. e SPINOLA, N.D.
(coord.) Desarrollo Regional. Barcelona (Es-
panha): Xarxa Temàtica MEDAMERICA, 2001.
SILVA, Sylvio C.B.M. e SILVA, Barbara-
Christine N. Estudos sobre globalização, ter-
ritório e Bahia. Salvador: UFBA, 2003.
SINGER, Hans W. Países ricos e países pobres.
Tradução: José R. B. Azevedo. Rio de Janeiro:
Livros Técnicos e Científicos Editora S. A., 1979.
TOLEDO JÚNIOR, Rubens de. Telecomunicações
e uso do território brasileiro. In: SOUZA, Ma-
ria Adélia A. (org.). Território brasileiro, usos
e abusos. Territorial. Campinas (SP), 2003.

Page 14
68 - GEOUSP - Espaço e Tempo, São Paulo, Nº 31, 2012
NETO, S. P. G. C.